Reflexões de uma trabalhadora da economia criativa...
Estou abatida com o ritmo de produção criativa exigida: é para hoje. É para amanhã. É urgente!
E penso: o trabalho criativo precisa de tempo. Entre uma ideia e a execução é preciso tempo. Entre a ideia e a execução é preciso tempo.
Esses dias vi uma série de stories no Instagram da Raiza Costa, uma artista que acompanho e admiro. A Raiza estava comentando que hoje não temos tempo (nós que trabalhamos com criatividade) de revisar, de voltar, de criar distanciamento, de criar esse espaço entre a gente e o trabalho. E que, com isso, entregamos sempre o nosso rascunho, e não o melhor que poderíamos.
Também li sobre isso na newsletter Outra Cozinha, da Carla Soares, que dissertou sobre o fato de estarmos padronizados e fazermos tudo igual porque não temos tempo de experimentar, testar, nos afastar, ver como fica, e então retornar.
Tudo isso faz muito sentido para mim porque, às vezes, sinto que me falta tempo para entregar a versão finalizada. E não porque realmente falta tempo, mas porque a demanda por uma rapidez, ou por uma criação instantânea me tiram esse tempo.
Se eu pudesse, demoraria meses para entregar um texto, só para ver onde eu poderia chegar com ele.
Às vezes, eu só tenho uma ideia legal dias depois de o projeto ter sido entregue. Às vezes, o resultado fica aquém do que eu gostaria. Mas temos prazos. Curtos.
Eu sinto necessidade de ter tempo para me dedicar a uma coisa, e pode fazer essa coisa com o maior cuidado que eu puder. Eu estou preocupada com o que estou entregando às pessoas. Sou responsável por isso. E acredito que que, quem me lê, merece receber o que de melhor eu posso produzir. E isso definitivamente não vem de uma hora para outra.
Às vezes, sinto que a publicidade é pouco corporificada. Muito se fala em humanizar, mas pouco em dar corpo. E sem corpo, sem o corpo de quem faz, quem consome recebe pouco de gente, e muito mais de automático e robotizado, principalmente porque a mediação é feita pelos celulares. Não estamos, de fato, conectados.
Eu questiono essas coisas e faz sentido para mim ler outras pessoas questionando, porque é nisso que eu acredito — essa é a minha pesquisa.
De 2020 a 2022, integrei o projeto de pesquisa e coletivo de artistas Poéticas do ENTRE: Corpo, Escuta e Criação Artística e, junto com outros artistas-pesquisadores, investiguei o "entre" como força, espaço, pulsão, movimento.
A partir disso, investigo o "entre" como tudo o que habita a minha criação artística, o meu corpo, a minha relação com as coisas. O que há entre mim e as coisas que derivam das minhas pulsões? Entre mim e os outros? Mas não apenas isso, a pesquisa abriu minhas escutas para que eu pudesse pensar o "entre" em tudo: o "entre" como tempo de espera, de distanciamento, de abrir espaço, de ócio.
Eu trabalho com criação há muitos anos. Há cinco anos sou redatora, mas antes de trabalhar com isso já escrevi muito tempo. E qual a diferença entre esse tempo que só escrevi e o tempo em que sou redatora? O "entre".
Enquanto integrei o coletivo, falamos muito sobre o tempo do corpo, sobre criar no tempo do corpo. Afinal, nós somos corpo.
Mas no meio de uma demanda pela criação instantânea, do tempo dos prazos apertados, o tempo já não é mais o do corpo.
Já não há mais espaço "entre" o corpo e o que se produz, porque não temos tempo de criar esse espaço, revisar, editar, pensar novas alternativas, trocar ideias, tomar um café demorado, descansar, conversar mais, mudar de ideia, adicionar uma nova linha ou pensar em um novo rumo porque temos que entregar amanhã. E com inovação. E com diferenciais. E que seja atraente. E muito mais.
O ócio criativo é importante. É do espaço "entre" que as ideias vêm. Eu acredito muito que a gente precisa começar a dar mais tempo para o corpo. Se não, não vamos conseguir nada novo, criativo, ousado ou especial.
Vamos entregar nosso rascunho e seguir um padrão? Ou vamos permitir que nossas pulsões nos deem a direção?
Talvez nada disso seja novo. Talvez essas sejam reflexões importadas de todos os textos que eu li. Mas também é o que eu sinto. E é uma necessidade que percebo em mim. Mas, se meu trabalho exige criatividade, e criatividade é um processo, então talvez eu não esteja sentindo errado.
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Esses tempos fiz uma oficina sobre escrita compassiva para redes sociais com a Carla Soares. Ela falou muito sobre escrever a partir da experiência, a partir do que conhecemos. E é daí que vem esse texto.
Eu acredito nessa prática de escrita e adorei entender mais com a oficina da Carla. Essa é uma forma de escrita mais próxima do corpo, principalmente quando falamos sobre redes sociais, que normalmente são mais higienizadas e até fora da realidade — lá, tudo é muito bem pensado para ser o que é, para transmitir o que se deseja, para dar a ideia de perfeição. Tudo parece tão perfeito que aparenta estar longe da gente.
Seria essa uma forma de fugir dos padrões e criar algo mais genuíno — aproximar do corpo? Seria contar sobre a gente e o que sentimos ao estar, comer, beber, rir e conversar em um lugar? Eu penso sobre isso em redes onde as pessoas não estão de fato, elas não querem realmente criar conexões. Mas será que essa é uma forma de incentivá-las a se conectar? Mostrando que eu estou ali? Que uma pessoa escreveu aquilo?
Apenas reflexões de uma trabalhadora da economia criativa...
Links:
Newsletter Outra Cozinha: https://outracozinha.substack.com/
Site do "Coletivo Poéticas do ENTRE: Corpo, Escuta e Criação Artística": https://www.poeticasdoentre.com.br/
Mais sobre minha pesquisa sobre o "entre": https://dspace.unila.edu.br/bitstream/handle/123456789/6282/SER%20PO%C3%87A%20-%20ANA%20CLARA.pdf?sequence=1&isAllowed=y
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