me permitir NÃO queimar

 em 2020, escrevi a seguinte frase em um posto do finado vírgula assassina:

Eu lia, pensava, reflexionava, estudava, tudo isso sem ter nenhum projeto e nem saber como começar. Minha cabeça já estava borbulhando e fervendo e esfumaceando mesmo antes de colocar em prática.

escrevendo esse texto, eu estava refletindo sobre a forma como via minhas ideias, meus projetos. e usei muito a palavra "ferve" ou "fervendo" ou "ferveu".

coincidência ou não, dois anos depois comecei a prestar serviço para a agência ferve.

no texto citado de 2020, usei a palavra ferve várias vezes com um significado de cansaço. quando eu fervia, era porque me sentia exausta, e precisava me distanciar de um pensamento, projeto ou ideia.

pensar nisso agora é interessante, porque nesse momento eu precisei buscar por um novo movimento, que encontrei na água.

e a água apaga o fogo.

Durante o ano pandêmico, acendi, queimei e apaguei tantas vezes que nem consigo mais contar nos dedos. Meu corpo ficou tão exausto durante a queima e depois de apagado que não conseguia mais. Como faz pra lidar com o sentimento de apagar depois de uma queima tão arrebatadora? Talvez me reconectar com o presente...

estar na ferve me fez conectar novamente com essa sensação de acender e apagar, algo que achei que tinha superado (superação nunca é a palavra mesmo).

mas o que percebo no dia a dia é que tudo o que tem a ver com queimar, ferver e incendiar pode acabar ser cansativo demais. e por quê? porque a gente não é feito pra queimar. queimar é exaustivo. ferver machuca. entrar em contato com um incêndio não faz bem pra saúde.

mas como lidar com isso quando a palavra de ordem é ferver? como buscar um movimento diferente nesse ambiente? apenas divago.

a questão é: eu não quero mais incendiar. eu me frustrei queimando. eu quero esse movimento mais calmo, e quero saber como produzir a partir desse movimento mais clamo. eu quero que as palavras fluam. eu quero ser conduzida por elas.

ainda estou pensando sobre como permitir que elas me conduzam, sobre como é possível estar próxima de mim mesma enquanto preciso produzir para os outros. será que é possível?

como tornar a rotina menos "fervida" e mais aquosa? como arejar os espaços — criar espaços entre? como me sentir autêntica?

eu gostaria de ter uma resposta pra todas essas questões que surgem. mas eu não tenho.

ferver tem sido exaustivo, e eu desejo encontrar um novo movimento, desejo realizar algo que esteja mais próximo de mim. 

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